Dois pesos e duas medidas
18 18UTC junho 18UTC 2008
Pedro Castro
Jornalista
No caso Dorothy Stang, é unanimidade a indignação nacional já manifestada inclusive pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com relação à decisão do júri de Belém que absolveu Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, da acusação de mandante do crime. O fazendeiro, em liberdade, aparece de forma cândida e tranqüila dando entrevistas na TV, parecendo zombar da opinião pública.
Este mesmo público, os cidadãos que pagam impostos para termos uma Justiça desigual onde o pêndulo sempre é brando com os abastados e cai pesadamente em cima dos pobres.
É simplista argumentar que na medida em que somente porque os ricos podem pagar bons advogados, as brechas encontradas por estes na legislação acabam por beneficiar seus clientes. Obviamente, está é uma realidade, entretanto a raiz do problema está no fato de que o Estado brasileiro, salvo exceções pontuais, não oferece aos cidadãos serviços públicos decentes, incluindo os judiciários.
O advogado Asdrubal Júnior, coordenador do curso de Direito da Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (AEUDF), lembra que, assim como os advogados notórios, a Defensoria Pública tem grandes quadros, inclusive, todos ao ingressar no órgão, tão cobiçado pelos estudantes de Direito, passam por um rigoroso critério de seleção para o cargo público.
Entretanto, a Justiça brasileira se transformou num imenso gargalo. Assim como os magistrados, os defensores públicos estão assoberbados com inúmeros processos simultâneos e fazem o que é possível dentro das limitações impostas. Por exemplo, quando ocorreu na mais alta Corte do país uma sustentação oral da Defensoria Pública em defesa de um sujeito pobre? O ex-presidente do STF, ministro Celso de Mello, recorda somente de uma, registrada por ele como "um fato histórico". Asdrúbal Júnior comenta que não tem registro de ação semelhante.
Assim como o fazendeiro Bida, também está em liberdade Pimenta Neves, assassino de Sandra Gomide. A defesa, auxiliada por um psiquiatra, apelou para o comovento "fato" do ex-diretor de redação não ter "premeditado o crime" e que após o ocorrido "a vida do jornalista se desorganizou", inclusive com estresse "pós-traumático".
Já à família de Sandra Gomide, com suas vidas brutalmente violadas por um crime bárbaro, e além desta dor, impotente diante da decisão da (in) Justiça, restou protestar com um nariz de palhaço.
Mas este decididamente não é o país da impunidade. A empregada Angélica Teodoro foi condenada e encarcerada por quatro meses em São Paulo porque roubou em 2006 um pote de manteiga que custava R$ 3,10. Ameaça à segurança pública menor somente do que a também empregada doméstica Maria Mattos, que roubou um shampoo em São Paulo, foi presa por um ano e sete e meses, torturada e perdeu a visão de um dos olhos. Era reincidente. A terrível Maria já havia roubado um shampoo antes.

